Lucerna: entre lagos, muralhas e montanhas
- Virna Miranda
- há 2 dias
- 11 min de leitura

Localizada no coração da Suíça, Lucerna é uma das cidades mais encantadoras do país — e não é por acaso que ela costuma figurar entre os destinos mais visitados da Europa. Às margens do belíssimo Lago dos Quatro Cantões e com os Alpes ao fundo como cenário, Lucerna reúne, em um só lugar, paisagens de tirar o fôlego e um centro histórico que parece ter saído de um conto de fadas.
É uma cidade pequena, mas cheia de personalidade. As origens medievais estão por toda parte — nas muralhas, nas igrejas barrocas, nas pontes de madeira, nas fachadas dos prédios pintadas à mão. Ao mesmo tempo, Lucerna pulsa com vida: é moderna, vibrante e charmosa, além de sediar festivais de música e arte e ter uma excelente cena gastronômica. Uma combinação infalível para amor a primeira vista.
Localizada na parte alemã da Suíça, Lucerna também tem uma posição estratégica: está a pouco mais de uma hora de trem de Zurique, aos pés do Monte Pilatus e no caminho para a região de Jungfrau, o que faz dela uma parada perfeita em qualquer roteiro pelo país.
No nosso caso, Lucerna foi o segundo destino da viagem — a transição ideal entre a energia urbana de Zurique e a imersão nas montanhas que viria a seguir. Ficamos apenas uma noite, mas o suficiente para nos apaixonarmos.
Muita gente faz um bate e volta para esse destino — e confesso que por um momento até pensamos nisso. Mas dormir uma noite na cidade foi uma ótima decisão: se já é linda de dia, à noite Lucerna é pura magia. Com seu lago verde-azulado, as pontes medievais, as fachadas pintadas, as torres de pedra e os cisnes passeando preguiçosamente pela margem, parece um lugar imaginário de um livro de histórias.
Lucerna também é o ponto de partida ideal para quem vai explorar Jungfrau - como é conhecida a região nos arredores de Interlaken - como foi o nosso caso. Quem tiver mais tempo pode usar a cidade como base para diversos bate-voltas. Mas, como passaríamos cinco dias nos Alpes, sentimos que um dia e uma noite por aqui seria a medida certa. E foi.
Visitamos Lucerna no início de junho de 2025, durante nossa viagem de férias à Suíca (portanto, final da primavera). Já havíamos passado 3 dias em Zurique, cidade de chegada do nosso voo do Brasil (clique aqui para ler o post sobre nossos dias em Zurique).
A chegada a Lucerna
Saímos de Zurique bem cedo. Pegamos o trem na pequena estação em frente ao nosso hotel (sério, era só atravessar a rua) e mais uma vez ficamos encantados com a facilidade de ir e vir para qualquer canto na Suíça.

De Horgen (a região em ficamos hospedados em Zurique) até Lucerna, são apenas 50 minutinhos de trem. Enquanto vamos admirando a estonteante paisagem alpina, o tempo passa voando. Em parte do trajeto, o trem vai beirando o lago, com os Alpes deslumbrantes como pano de fundo. Hora de viver as paisagens suíças tiradas das caixas de chocolate!!! Ao vivo, é de tirar o fôlego!
E chegamos em Lucerna!!! Desembarcamos na estação central e pegamos um ônibus na porta. Em 10 minutos estávamos na porta do nosso hotel. Aqui fica mais uma dica: use e abuse do SBB Mobile, o app que informa os horários e as opções de deslocamento de todos os meios de transporte da Suíça - ônibus, trem, tram, barco... É uma mão na roda! Tendo o o Swiss Travel Pass, é só escolher o próximo ônibus e embarcar. Não precisa comprar, reservar, nem pagar mais nada. Simples assim.
Quer saber mais sobre o Swiss Travel Pass? Leia nesse post de introdução da nossa viagem à Suíça.
Onde nos hospedamos
Para nossa hospedagem em Lucerna, escolhemos o Drei Könige — uma ótima escolha. Localizado na Bruchstrasse, no bairro de mesmo nome (Bruch), a localização era muito prática, a uma curta caminhada do centro histórico. Para quem prefere poupar as pernas, tem uma linha de ônibus que passa praticamente na porta e leva direto aos principais pontos de interesse. Ocupando um edifício antigo, o hotel tem aquele charme típico das construções europeias e o quarto era bem confortável.

Como chegamos cedo em Lucerna, ainda estava longe da hora do check in, mas pudemos guardar as malas no hotel e iniciar nosso passeio. Em um breve caminhada, já estávamos no coração da cidade, às margens do Rio Reuss, que deságua no Lago Lucerna, logo adiante.

Montanhas ao fundo, patos e cisnes desfilando tranquilamente na água azul-esverdeada e totalmente transparente... Voltar a Lucerna mais de 20 anos depois me trouxe lembranças da minha primeira viagem à Suíça. Eu tinha poucas memórias vívidas da cidade, mas uma, em especial, permanecia intacta: a imagem de sentar nos degraus na beira do rio e observar os cisnes. Foi muito legal reviver essa experiência.
A imponente Jesuitenkirche, a Igreja Jesuíta de Lucerna
Depois desse "déjà vou", partimos para explorar a cidade. Nossa primeira parada foi a deslumbrante Jesuitenkirche, um dos edifícios mais emblemáticos do centro histórico. Construída no Século XVII, é a primeira grande igreja barroca da Suíça, e impressiona tanto por fora, com sua fachada branca e torres arredondadas, quanto por dentro, com um interior luminoso e ricamente decorado. Com colunas elegantes e afrescos no teto, é um espaço que inspira reverência e deslumbre.
Depois de visitar a igreja, fomos seguindo pela margem do rio, enquanto nos deliciávamos com a paisagem de Lucerna: o verde-azul espelhado da água, as casinhas coloridas na outra margem e a famosa Kapellbrücke, que se estende majestosa sobre o rio Reuss. Pausa para uma explicação: como grande parte das cidades européias, que se desenvolveram a partir da água, Lucerna também é dividida por um rio. A maior parte das atrações turísticas concentra-se no lado onde fica o centro histórico (as fontes com esculturas, as fachadas pintadas a mão, o leão de Lucerna, as muralhas...). Mas o lado de cá também tem seu charme, com monumentos belíssimos como a própria Jesuitenkirche, além de muitos bares e restaurantes. E a graça aqui é percorrer a cidade cruzando as pontes de um lado para o outro (são curtinhas e uma delícia de caminhar de dia ou de noite) e ir descobrindo seus diversos ângulos, todos deslumbrantes!!!

Pontes que contam histórias: Kapellbrücke, Spreuerbrücke e a força do Reuss
Lucerna é uma cidade atravessada pela beleza — todo mundo fala do Lago, mas o Rio Reuss é um de seus maiores encantos - e ele deságua logo ali no lago, então é fácil mesmo confundir os dois. Caminhar por suas margens é se deixar levar por um cenário quase cinematográfico, onde natureza e história andam de mãos dadas. E é impossível não se emocionar ao cruzar suas pontes medievais.
A mais famosa delas é a Kapellbrücke, ou Ponte da Capela. Construída no Século XIV, é considerada a ponte coberta de madeira mais antiga da Europa. Mas ela não impressiona apenas pela idade: seu charme está nos detalhes.

Atravessando essa ponte, é possível admirar uma série de pinturas triangulares no telhado que contam episódios marcantes da história de Lucerna. O que poucos sabem é que muitas dessas pinturas são réplicas: em 1993, um incêndio destruiu boa parte da estrutura de madeira, mas que foi totalmente restaurada (incluindo as pinturas). Caminhar sem pressa pela Kapellbrücke é uma experiência mágica em qualquer hora do dia - descobriríamos mais tarde o encanto que é esse lugar quando anoitece.
Poucos metros adiante, chegamos a outra ponte histórica: a Spreuerbrücke. Menos procurada pelos turistas, mas tão ou mais fascinante que a Kapellbrücke, essa ponte coberta do Século XV abriga as Totentanz, uma série de pinturas sombrias, também conhecidas como “Dança da Morte”.
As Totentanz foram pintadas no Século XVII por Kaspar Meglinger e mostram esqueletos interagindo com pessoas de todas as classes sociais — uma lembrança artística e um tanto macabra da efemeridade da vida.
A Spreuerbrücke tem um ar mais silencioso, quase místico, e proporciona uma vista linda do rio e da cidade, além de ser um ponto estratégico para tirar lindas fotos da Kapellbrücke.
E foi ali perto, entre uma ponte e outra, que encontramos um dos lugares que mais me impressionaram em Lucerna: o sistema de comportas no rio Reuss, que regula o nível da água do lago. Entre torres medievais e fachadas floridas, a cidade revela sua força bruta — a água jorrando com potência, numa correnteza ruidosa, mostrando que, apesar do cenário de conto de fadas, há ali também uma engenharia poderosa trabalhando nos bastidores. Ficamos ali parados, hipnotizados, observando a força do rio.
O centro histórico saído de contos de fadas
Já do outro lado do rio, nos perdemos pelas ruas do centro histórico de Lucerna. Um dos charmes da cidade são suas fontes centenárias, que assim como em Zurique, fazem parte da paisagem com uma elegância discreta - além de oferecer água fresca e geladinha. É só encher a garrafinha e matar a cidade ao longo do passeio.
As fachadas coloridas das casas completam o tom encantado de Lucerna: pintadas à mão, com afrescos coloridos, detalhes delicados e janelas floridas, essas verdadeiras obras de arte a céu aberto datam dos idos de 1500. Parece que estamos caminhando em um catálogo vivo de uma autêntica street art Idade Média.

O programa aqui é andar sem pressa, explorando lojinhas, cafés, padarias e restaurantes, deixando-se surpreender por cenas encantadoras que surgem a cada esquina. Em um portinha que quase passa despercebida, entramos para experimentar uma especialidade local: a Chäswähe. Além da tradicional tortinha de queijo suíça, com massa fina e recheio cremoso, o lugar vendia outras delícias de dar água na boca.

Museggmauer: as muralhas de Lucerna
Fome rebatida, seguimos para nossa próxima parada - as muralhas de Lucerna. Conhecidas como Museggmauer, essa estrutura medieval originalmente cercava a cidade como um colar de pedra no alto da colina e ainda hoje conserva nove torres originais. Para chegar, tivemos que encarar uma ladeira colina acima. Do alto, é possível percorrer um caminho suspenso que liga as torres - algumas delas abertas à visitação, com entrada gratuita, enquanto vamos admirando a linda vista da cidade e do lago lá embaixo.
Seguimos até alcançar a Torre do Relógio. Construída no Século XIII, a Zytturm é uma das torres mais famosas da muralha por abrigar o relógio mais antigo da cidade, que tem o direito de tocar um minuto antes de todos os outros em Lucerna.
Já que estávamos ali, insisti com Zeca para subir os degraus íngremes de madeira que levam até o topo da torre. Estava um sol lindo, o céu azul sem uma nuvem... O visual lá de cima prometia ser deslumbrante. Mas àquela altura do dia, fazia calor e a escadaria nos encarava. Zeca começou a reclamar da subida que não terminava nunca... Acabou desistindo da empreitada, deu meia volta e desceu. Depois de tanto esforço - e eu não sou de desistir fácil - respirei fundo e segui sozinha. Quando finalmente cheguei no topo, ofegante, dei de cara com uma janelinha minúscula, daquelas que mal dá pra enfiar o nariz. Ai, ai...
Tive que dar o braço a torcer: queimamos pernas à toa. E olha que eu já me prometi várias vezes não cair mais nessa história de subir torres e igrejas atrás de vistas épicas. Mas vai entender... a gente vê uma escada de madeira medieval e esquece todos os perrengues de viagens passadas. Enfim, tirei minhas fotos e desci resignada para encontrar Zeca lá embaixo e ouvir alguns comentários sobre minha teimosia, etc, etc...
Mas vamos combinar que a vista é realmente deslumbrante...

Löwendenkmal: o leão que guarda Lucerna
Depois do mico da torre, seguimos para nosso próximo destino: o monumento do Leão de Lucerna, que ficava ali pertinho. Pelo menos agora a caminhada era ladeira abaixo — e pra descer, todo santo ajuda! O monumento fica escondido em um jardim tranquilo, quase secreto, como se a cidade o protegesse em silêncio. Esculpido diretamente na pedra, o Leão de Lucerna (Löwendenkmal) é uma das joias da cidade.
A obra homenageia os guardiões suíços da monarquia francesa, mortos em 1792 defendendo o Palácio das Tulherias, durante a Revolução Francesa. A escultura, feita em 1821 por Bertel Thorvaldsen e entalhada por Lukas Ahorn, mostra um leão ferido, deitado, agonizante, com uma lança cravada no flanco.

O semblante sofrido do leão é de uma intensidade que toca a alma — há uma tristeza contida que transborda da pedra. Ficamos profundamente emocionados. Pensei em minha mãe: ela com certeza não iria gostar da imagem, com pena do leão. Sentamos ali por um tempo, apenas contemplando, em silêncio, agradecendo pela oportunidade de estar diante de uma obra tão expressiva e comovente.
Pausa para um piquenique suíço
Saindo do parque do leão, estávamos cansados e com fome. Ali perto ficava um lugarzinho que eu tinha visto no YouTube, no canal Aplins in the Alps: a Chäs Barmettler, uma lojinha fofa de queijos e produtos típicos, administrada há décadas pela mesma família. A fachada convida a entrar, mas o cheirinho das tortinhas de queijo assando em um forninho na porta é simplesmente irresistível. Fomos recebidos pelas simpáticas senhorinhas proprietárias, que não falam inglês.

Entre sorrisos, gestos e muita mímica, conseguimos comprar nossas Chäswähe (as tortinhas de queijo ainda quentinhas), pedaços de queijos suíços, cada um mais incrível que o outro, e um vinho geladinho para acompanhar.
Em uma padaria em frente, compramos pão para acompanhar e sentamos em um banco na margem do Lago Lucerna para fazer nosso piquenique com vista para os Alpes.
Passeio de barco pelo Lago Lucerna
Depois do nosso piquenique, decidimos aproveitar o sol da tarde e navegar pelas águas do Lago de Lucerna - que na realidade se chama Lago dos Quatro Cantões, em função dos cantões que o rodeiam (cantão é como se chamam os "estados" na Suíça). Com o Swiss Travel Pass, é possível embarcar em diferentes rotas que cruzam o lago e conectam pequenas cidades da região. Escolhemos um percurso de cerca de uma hora, embarcando animados no píer principal, prontos para relaxar e apreciar a paisagem. O dia estava perfeito: céu azul, sol brilhando e o lago espelhado refletindo a luz suave da tarde. Veleiros cruzavam o horizonte preguiçosamente, enquanto os Alpes nevados, ao fundo, compunham um cenário quase irreal de tão bonito.

Mas, apesar da paisagem de tirar o fôlego, a experiência não foi tão mágica quanto esperávamos. A embarcação estava cheia e barulhenta, e a atmosfera perdeu um pouco do encanto. Parecia mais um programa “turistão” do que um momento de contemplação. Em Interlaken, fizemos um passeio de barco muito mais especial — e também gratuito com o passe. Mas esse capítulo fica pra depois.

A magia de Lucerna à noite
Depois de uma pausa estratégia no hotel para tomar um banho e descansar, saímos para jantar e curtir Lucerna à noite... ah, Lucerna à noite consegue ser ainda mais linda.

Quando saímos do hotel, ainda estava claro - no final da primavera, o sol vai se pondo mais tarde a cada dia (estávamos no início de junho)... Atravessamos a ponte e procuramos um restaurante que os agradasse. Acabamos escolhendo o Amos, um restaurante grego à beira do rio, com mesas externas e uma vista linda para as águas calmas de Lucerna.

Foi daqueles acertos que a gente descobre ao acaso: ambiente charmoso, vista linda, atendimento simpático e uma comida absolutamente deliciosa.
Pedi um risoto de frutos do mar preparado com perfeição e Zeca foi de stinco de cordeiro, que também estava incrível. Foi, sem dúvida, o melhor jantar da viagem até ali - por ironia, o menu não era italiano, hahahaha.
Depois do jantar, as luzes da cidade já tinham finalmente se acendido e decidimos dar uma volta pelas ruas do centro histórico antes de voltar para o hotel - e Lucerna à noite é outra Lucerna. Mais silenciosa, mais íntima, quase sussurrada.

Percorremos as ruelas que agora vazias pareciam realmente cenário de um filme...
Chegamos mais uma vez na Kapellbrücke, com suas luzes refletidas no Reuss como lanternas flutuantes. Atravessar a ponte à noite foi um dos momentos mais mágicos da viagem: a madeira antiga rangia sob os pés, a torre se projetava na água e a cidade parecia estar ali só pra gente.
Voltamos para o hotel em silêncio, embalados por essa atmosfera delicada e encantadora. Era a sensação de ter vivido um dia completo — cheio de descobertas, beleza, sabores, e poesia em cada detalhe. No dia seguinte, partiríamos para uma das etapas mais esperadas: a região de Jungfrau, lar dos Alpes majestosos e dos cenários que sonhamos durante quase um ano enquanto planejávamos nossa viagem para a Suíça.
Para saber mais sobre nossos dias na Suíça, leia os outros posts dessa série.
Região de Jungfrau
Berna
10 coisas imperdíveis na Suíça Alemã
.png)





















































































Comentários