No coração dos Alpes: nossa imersão de 5 dias em Jungfrau e Interlaken
- Virna Miranda
- há 5 horas
- 22 min de leitura

Quando começamos a planejar nosso roteiro pela Suíça, nos deparamos com uma infinidade de lugares “imperdíveis”, daqueles que fazem qualquer viajante sofrer na hora de escolher. Foi difícil fazer essa "escolha de Sofia". Mas eu e Zeca estamos numa fase em que menos é mais... atualmente, preferimos conhecer menos lugares sem pressa do que tentar encaixar mil destinos em poucos dias e voltar com a sensação de que vimos muito… mas vivemos de verdade muito pouco.
E a Suíça não facilitou nossa vida. É daqueles países onde até a menor e mais remota vila parece valer a viagem inteira. E vamos combinar: tudo é tão lindo e perfeito quanto te dizem. Tínhamos 12 dias, viajando no final da primavera (maio/junho de 2025), e começamos pelo essencial. Escolhemos Zurique, Lucerna e Berna, três cidades emblemáticas da Suíça alemã, que equilibram história, cultura e aquele charme urbano que o país sabe entregar como poucos. Mas faltava o “recheio”. Queríamos algo diferente. Menos cidade, mais natureza. Menos correria, mais presença. Queríamos uma imersão de verdade nessa atmosfera mágica dos Alpes, no melhor estilo slow travel.
Depois de muita pesquisa e vários cortes difíceis, chegamos a uma região conhecida como Jungfrau. À primeira vista, Interlaken aparece como a grande protagonista desse pedaço da Suíça alemã, por abrigar uma das principais estações de esqui do país. Mas, conforme fomos nos aprofundando, percebemos que ela era apenas a ponta do iceberg. A região de Jungfrau é muito mais do que um destino, é um universo inteiro de possibilidades. Foi ali que vivemos alguns dos dias mais intensos e inesquecíveis da viagem: entre montanhas com topos nevados, vales salpicados de cachoeiras, lagos transparentes e vilarejos charmosos cercados de paisagens que, de tão perfeitas, parecem irreais.
E havia ainda um elemento que transformaria completamente essa experiência: o Swiss Travel Pass, que corou nossa viagem com uma mobilidade de ir e vir que fez toda a diferença. Podíamos optar por qualquer cidade como base e, a partir dali, teríamos acesso a dezenas de destinos e experiências incríveis a poucos minutos de trem, barco ou teleférico. Sem reservas, sem burocracia, sem preocupação com horários rígidos ou deslocamentos complicados. Como já comentei em outro post, o STP permite exatamente isso: subir e descer de praticamente qualquer transporte público, na hora que quiser, sem precisar comprar bilhetes adicionais.
E foi essa liberdade que nos permitiu viver Jungfrau com calma, leveza e, principalmente, com profundidade.
Wengen, nossa linda base no topo da montanha

Com esse “free pass” nas mãos para escolher onde ficar, decidimos fazer base em Wengen, uma pequena vila alpina a 1.274 metros de altitude, encrustada no coração da montanha. Com pouco mais de 500 habitantes e nenhum carro, Wengen é acessível exclusivamente por uma deliciosa viagem de trem que dura exatos 12 minutos subindo a montanha a partir de Lauterbrunnen, uma cidadezinha um pouco mais famosa por seu vale com mais de 70 cachoeiras que despencam das montanhas, especialmente na primavera, época do degelo dos Alpes.
Escolher Wengen foi um acerto absoluto. É quase um lugar esquecido no mapa, daqueles que a gente só descobre pesquisando muito e que acabam se tornando o ponto alto da viagem. No inverno, quando chegam os esquiadores para a temporada de neve, a vila deve virar um burburinho. Mas na primavera, o que encontramos foi um cenário de tranquilidade quase rara. O silêncio só era interrompido pelo som dos sinos das vaquinhas ao longe e pelo trem que parava de tempos em tempos em sua pequena estação, antes de partir para o próximo vilarejo montanha acima.

Mas, como aprendemos rapidamente na Suíça, tamanho definitivamente não é documento. Wengen é charmosa, acolhedora e cheia de vida, concentrada principalmente na pequena rua principal, onde ficam lojinhas, cafés e alguns restaurantes. Dali, ruelas floridas se espalham ao redor, revelando chalés típicos e vistas abertas para o vale de Lauterbrunnen e para os gigantes alpinos Eiger, Mönch e Jungfrau. E é "basicamente" isso. Mas o suficiente para nos apaixonarmos...
Nos hospedamos no Arenas Resort, um típico hotel alpino, com localização perfeita, literalmente em frente à estação de trem. Era só atravessar a rua e embarcar, o que tornava tudo ainda mais prático.
O quarto era pequeno, mas uma graça. De manhã cedinho, quando a gente acordava, Zeca abria a portinha que dava para a varanda com vista para as montanhas, preparava um café na cafeteira do quarto e a gente ficava ali, ainda na cama, contemplando os picos nevados enquanto o sol, preguiçoso, começava a iluminar o vale. Um daqueles momentos simples que ficam pra sempre na memória.

O hotel também tinha um ótimo café da manhã e um destaque especial: uma hidromassagem no terraço, ao ar livre, perfeita para relaxar no fim do dia com vista para os Alpes. Um cenário de sonho e que foi nossa base durante os cinco dias em que exploramos a região de Jungfrau, em uma imersão completa no coração dos Alpes suíços.
Dia 1: A chegada em Wengen e o primeiro encontro com os Alpes
Saímos cedo de Lucerna rumo a Wengen. O trajeto leva cerca de duas horas e tem faz conexões em Interlaken e depois em Lauterbrunnen. Mas, na Suíça, isso está longe de ser um problema, na realidade faz parte da experiência. A cada trecho, a paisagem vai mudando de forma quase coreografada. Aos poucos, deixamos para trás o cenário urbano e vamos adentrando o interior do país, com seus campos verdejantes, lagos de águas cristalinas e pequenas vilas espalhadas como se tivessem sido posicionadas à mão. Ao fundo, os Alpes já começam a aparecer — discretos no início, mas cada vez mais imponentes.

Mas nada prepara para o último trecho. Ao embarcar no trem que liga Lauterbrunnen a Wengen, o impacto é imediato. O trem parte lentamente da estação e começa a subir a montanha, enquanto o vale vai ficando para trás. Em poucos minutos, Lauterbrunnen se transforma em uma paisagem pequenina lá embaixo... Parece uma pintura, com suas casas minúsculas e suas cachoeiras despencando das montanhas como fios de água. O trem serpenteia encosta acima, e tudo vai ficando mais silencioso. É como se a gente estivesse sendo conduzido, aos poucos, para dentro dos Alpes.
Exatos 12 minutos depois, chegamos à pequena estação de Wengen. E ali começou uma das experiências mais marcantes da viagem. Durante cinco dias, faríamos esse trajeto várias vezes, subindo e descendo o vale, mas ele nunca perdeu o encanto. Muito pelo contrário. É, até hoje, uma das lembranças que mais me dão saudade dessa viagem pela Suíça.

Ao descer do trem, veio mais uma surpresa: nosso hotel ficava exatamente em frente à estação. Foi literalmente atravessar a rua e chegar. Ainda era cedo para o check-in, então deixamos as malas no depósito e demos uma pequena volta pela vila, só para sentir o clima: aquele silêncio gostoso, as montanhas ao redor, o ar mais fresco. O dia estava lindo, então sem perder tempo, pegamos o trem de volta para Lauterbrunnen para aproveitar a tarde. Como só tínhamos meio período, decidimos por um passeio mais curtinho, ali mesmo no vale: conhecer o pequeno vilarejo de Mürren e a estação de Schilthorn, famosa por ter sido cenário de um dos filmes do 007.
Mürren — um vilarejo suspenso no tempo

Assim como Wengen, não existem carros em Mürren. Localizada a cerca de 1.650 metros de altitude, no alto de um penhasco sobre o vale de Lauterbrunnen, a vila parece flutuar sobre a paisagem. O acesso já é parte da experiência: pode ser feito por teleférico direto de Lauterbrunnen ou combinando ônibus + teleférico. Como a fila do teleférico principal estava grande, optamos pelo plano B: pegamos um ônibus até o pé da montanha e, de lá, um teleférico mais curto até o vilarejo (tudo incluído no Swiss Travel Pass).
Mürren é pequena, silenciosa e absolutamente encantadora. Chalés de madeira, algumas lojas fofinhas, pequenos hotéis e restaurantes com vista panorâmica e, ao fundo, a imponente tríade alpina: Eiger, Mönch e Jungfrau.

Àquela altura, a fome já estava batendo forte, mas tínhamos sido estratégicos: ainda em Lauterbrunnen, passamos em uma loja da Coop, a incrível rede de supermercados da Suíça que vende comidas deliciosas e prontinhas, perfeitas para um bom piquenique. Sentamos em um banquinho na rua principal para nosso almoço improvisado, enquanto assistíamos as pessoas passeando por ali.
Schilthorn, a montanha de 007

De Mürren, seguimos para o próximo nível - literalmente. O Schilthorn, a 2.970 metros de altitude, é um dos picos mais impressionantes da região, com vista panorâmica para o famoso trio de montanhas Eiger, Mönch e Jungfrau. A subida é feita em duas etapas de teleférico, com uma parada intermediária em Birg, onde já começam as vistas absurdas e as passarelas suspensas. Compramos os ingressos na própria estação e embarcamos - esse teleférico é pago, porque a montanha é uma estação particular de esqui, mas com o STP tivemos 50% de desconto.
Ao chegar no topo, o mundo mudou de escala. Nos deparamos com uma paisagem completamente diferente. Mesmo sendo primavera, os picos da cadeia de montanha ainda estavam cobertos de neve, e o contraste com o céu azul era de tirar o fôlego. Da plataforma principal, onde fica o restaurante, a vista é 360°, com um mar de montanhas ao redor, formando um cenário difícil de descrever.

Logo na chegada, tem um terraço com mesas ao ar livre para curtir o um visual de tirar o fôlego.

Descemos os degraus e seguimos para a Thrill Walk, uma trilha formada por escadas vazadas e passarelas de aço suspensas que, coladas no paredão, vão contornando a montanha.
Em um trecho, você precisa atravessar uma ponte vazada, enquanto o vento balança a estrutura de um lado para o outro. A experiência não é para fracos, hehehe... Dá até frio na barriga olhar para o vazio lá embaixo. É muita adrenalina potencializada pelo visual absolutamente surreal.

É nessa primeira parada de Schilthorn que fica a Bond World 007, uma exposição interativa sobre o filme 007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade, que foi filmado ali. A mostra é imperdível para os amantes de James Bond, como nós. Além de curiosidades sobre o universo de 007, dá para se divertir bastante com os simuladores de cenas dos filmes, como vôo de helicóptero, descida de bobsled e tiro ao alvo.
Depois de visitar a exposição, pegamos o teleférico para subir até a próxima plataforma, onde fica o Piz Gloria, o famoso restaurante giratório que completa uma volta a cada 45 minutos. A ideia é incrível: almoçar ou tomar um drink enquanto o cenário muda ao redor. Mas, na prática, achamos o restaurante meio sem graça. O buffet não empolgou muito, e parte do espaço estava em obras. Pedimos um drink, curtimos a vista mais um pouco… e decidimos que já era hora de encerrar o dia.

Começamos o caminho de volta para "casa": teleférico, Mürren, Lauterbrunnen, trem… até chegar novamente a Wengen.

Já à noite, saímos para jantar na rua principal da vila e escolhemos o Taverne Bernerhof, um restaurante acolhedor, com aquele clima típico de montanha. Provamos a clássica raclette suíça, acompanhada por um bom vinho e encerramos nosso primeiro dia nos Alpes: cansados, mas felizes com esse dia maravilhoso e ansiosos com o que nos esperava nos próximos dias!!!
Dia 2 — Grindelwald First, a montanha das aventuras

No segundo dia, acordamos cedinho, tomamos café e partimos para nossa próxima experiência. Era dia de conhecer Grindelwald–First. Batizada de Top of Adventure, essa montanha é um dos passeios mais disputados da região de Jungfrau, principalmente pelas atividades ao ar livre que a galera pode praticar por lá.
Pausa para um pequeno perrengue....

Existem duas formas de ir de trem de Wengen a Grindelwald: via Lauterbrunnen (montanha abaixo) ou via Kleine Scheidegg (montanha acima). Para dar uma variada, resolvemos subir a montanha. Mas, para nossa surpresa, poucos minutos após a partida do trem, um funcionário nos abordou pedindo o ticket. Era a primeira vez que isso acontecia na viagem. Confiantes, sacamos o celular e mostramos nosso Swiss Travel Pass... para descobrir que o trajeto nesse sentido não era coberto pelo passe!!! Nossa cara de surpresa foi tão grande que o moço acreditou piamente que éramos dois desavisados. Além de não nos cobrar a multa (que certamente seria bem salgada), deixou a gente descer na parada seguinte e nos orientou a esperar o trem no sentido contrário (esse trecho, sim, incluído em nosso passe). Descemos em uma estação que ficava no meio do nada, mas que tinha uma vista absurda para o vale lá embaixo. Enquanto esperávamos o próximo trem, aproveitamos para tirar registrar as vaquinhas que pastavam tranquilamente por ali. Em poucos minutos, nossa condução chegou e conseguimos seguir viagem até Grindelwald.
Localizada aos pés da imponente montanha Eiger, a cidade é uma graça, mas deixamos para explorá-la no final do dia.

Sem perder tempo, pegamos um ônibus na própria estação, que nos deixou na entrada do Firstbahn, o teleférico que liga Grindelwald ao topo da montanha First. Na primavera, as pistas de neve dão lugar a trilhas lindíssimas que serpenteiam pela cadeia de montanhas, mudando completamente o cenário.
A subida é paga, mas tivemos um bom desconto com o STP. E lá fomos nós montanha acima. Aqui, o trajeto é feito em gôndolas e leva em torno de meia hora, já que vai passando por algumas estações intermediárias. Mas sentados ali, admirando aquela paisagem estonteante lá embaixo, o tempo passou sem que a gente nem percebesse.


A chegada à última parada, no topo da montanha, é estonteante. Ao descer do teleférico, nos deparamos com a vista deslumbrante. Você realmente se sente no topo do mundo, cercado por montanhas que, naquela época do ano, estavam verdinhas na base, mas com cumes ainda cobertos de neve.
Caminhamos um pouco para fazer o reconhecimento do local e logo encontramos um cantinho no imenso gramado para sentar e admirar o visual. Ao nosso redor, era montanha por todos os lados, enquanto dezenas de paragliders coloridos cruzavam lentamente o céu azul, compondo a paisagem como se fosse um espetáculo coreografado.
Dali, também era possível ver as pessoas percorrendo a famosa First Cliff Walk, uma das atrações mais concorridas do lugar.

Assim como em Schilthorn, é uma passarela suspensa por cabos de aço, que contorna a montanha e te leva até um mirante projetado para o abismo. O problema é que a passarela é estreita, grudada na pedra, então só passa uma pessoa de cada vez, formando uma grande fila até o mirante. Resolvemos encarar a experiência, mas desistimos no meio do caminho. Ali mesmo, no meio da passarela, paramos para algumas fotos do paredão e voltamos. Vamos combinar que era muito melhor curtir o visual sentados tranquilamente do gramado, do que ficar disputando a passarela com dezenas de turistas procurando o melhor ângulo para tirar um foto da mesma paisagem.
Por ser uma das montanhas mais famosas da região (ao lado do Jungfraujoch, o famoso “Top of Europe”), a First é bem concorrida, especialmente pelas atividades de aventura, que são pagas a parte. O ideal é reservar com antecedência pelo site. Aprendemos isso da pior forma, pois deixamos para comprar na hora e não tinha mais vaga para o dia. Mas explico como funciona.
As principais atrações são as tirolesas que interligam duas plataformas - uma vai e outra volta. A primeira é uma tirolesa tradicional, mas a outra é bem diferente... Ela se chama Eagle e lembra uma asa delta: tem asas em formato de águia (daí seu nome) e você desce deslizando em um cabo de aço, como se estivesse realmente em vôo livre.

Depois, tem o mountain cart e a trotter bike - uma alternativa pra lá de divertida para descer a montanha, ao invés de pegar o teleférico. Primeiro, pega-se o mountain cart, que, como o nome já diz, é um cart de montanha - você assume o volante do carrinho e vai pilotando pelas curvas da estrada, ladeira abaixo. Zeca, que já foi piloto de kart, ficou especialmente arrasado porque não termos conseguido tickets para essa atividade!

Chegando na próxima plataforma, você devolve o carrinho e pega a trotti bike, uma mistura de patinete e bicicleta, para percorrer o último trecho e chegar até a estação, já em Grindelwald, onde entrega-se a bicicleta e ali acaba o passeio.

Dá para fazer a experiência completa ou combinar cart, bike, teleférico, trilha a pé... Fica a critério do estilo aventureiro de cada um.
Resignados, decidimos fazer nossa própria aventura: descer a montanha a pé, fazendo uma trilha pela estrada que compartilhamos com os carts e as trotti bikes. Uma das coisas que queria muito fazer nessa viagem era uma trilha - a Suíça nessa época é perfeita para quem gosta de caminhadas na natureza e muita gente faz trilha pelas montanhas e vales. Descendo pela estradinha, vamos admirando a montanha ao nosso redor, passando por pequenas propriedades rurais, vendo as vaquinhas pastando. O dia estava esplendoroso, um sol lindo, céu azul, as montanhas nevadas... Nem sei dizer o sentimento que foi preenchendo a gente naquela experiência que não vou esquecer jamais.
Em um ponto do caminho, paramos para beber água de um poço, que na realidade era um cocho para o gado, mas a água mais fresca e transparente que muita água mineral de garrafinha que já bebi na vida!
Depois de uma hora e meia de caminhada, chegamos na última plataforma antes de Grindelwald, onde encontramos um restaurante super agradável, daqueles com mesinhas no deck com vista para as montanhas. Já cansados, resolvemos encerrar nossa caminhada e sentar para comer alguma coisa e tomar uma bebida gelada, antes de pegar o último trecho de teleférico até Grindelwald.
Já na cidade, circulamos um pouco pelas ruelas charmosas, antes de pegar o trem de volta para "casa".
Chegando ao hotel, ainda deu tempo de aproveitar um banho na hidromassagem ao ar livre que fica no terraço do hotel, um relax perfeito para o corpo cansado da caminhada e do dia de aventuras.

A noite, fomos conhecer uma pizzaria bem gostosinha no centrinho de Wengen, chamada Ristorante da Sina, onde comemos uma Flammkuchen (ou tarte flambée, em francês), uma espécie de pizza fininha e crocante, servida em formato retangular, com creme, cebola e bacon, simplesmente deliciosa.
Uma curiosidade: apesar de ser super comum na Suíça alemã, a tarte flambée na verdade vem da região da Alsácia (França), ali na fronteira com a Alemanha, o que explica essa mistura cultural que aparece muito na gastronomia suíça.
Dia 3 — Um passeio de bicicleta pelo vale de Lauterbrunnen

E chegamos ao terceiro dia da nossa estadia em Wengen.
Acordar, tomar um café quentinho na cama olhando as montanhas, tomar um banho, descer para um delicioso café da manhã… e então pegar o trem para nossa próxima aventura. Ah, eu bem que podia me acostumar pra sempre com essa vida!
E o melhor: por aqui, nenhum dia é igual ao outro. Depois de dias explorando a região entre trens, gôndolas e trilhas, era hora de viver o vale de uma forma diferente: de bicicleta. E lá fomos nós, montanha abaixo, rumo a Lauterbrunnen.
Chegando ao vilarejo, fizemos uma parada estratégica no Coop para comprar algumas comidinhas para o nosso piquenique. Abastecidos, seguimos para alugar as bikes.
Existem várias lojas na cidade que oferecem esse serviço, já que pedalar pelo vale é uma das experiências mais procuradas da região.
Nosso plano era chegar até as Trümmelbach Falls, um impressionante complexo de cachoeiras escondidas dentro da montanha. O trajeto tem cerca de 8km e é praticamente plano. Com bikes elétricas é super tranquilo. Bikes alugadas, pedalamos um pouco pela vila e logo chegamos no limite urbano. Seguindo um pouco mais, já estávamos no verde vale de Lauterbrunnen, cercado de montanhas, onde dezenas de cachoeiras de degelo despencam por todos os lados.

A estradinha vai passando por pequenas propriedades rurais, com as fofas vaquinhas suíças pastando tranquilamente, como se fizessem parte da paisagem.

Em alguns trechos, pequenas pontes ligam os dois lados do caminho, atravessando o rio Lütschine Branco (em alemão, Weisse Lütschine) que serpenteia suavemente pelo vale, drenando as águas do degelo e das cachoeiras.

Pedalamos sem pressa parando a cada dois minutos para registrar o momento com fotos e vídeos. Em um ponto do caminho, paramos para conhecer de perto uma curiosidade local que já tínhamos ouvido falar.
Em algumas propriedades, encontramos produtos frescos como queijos, leite e embutidos à venda em vending machines ou até mesmo em pequenos expositores que funcionam em um sistema de confiança absoluta. Não tem ninguém atendendo. Você pega o que quiser e deixa o dinheiro. Simples assim. Só na Suíça mesmo.
Trümmelbach Falls: por dentro da montanha

Cerca de meia hora depois, chegamos às Trümmelbach Falls. E aqui começa uma das experiências mais impressionantes da viagem. As quedas ficam dentro da montanha e são alimentadas pelo degelo das geleiras dos Alpes, o que faz com que a força da água seja absurda.

Obs: também dá para chegar aqui de ônibus, partindo do centro de Lauterbrunnen
Compramos os tickets na entrada. Tinha uma filinha, mas foi bem rapidinho. Não precisa reservar, nem comprar com antecedência, é bem tranquilo.

Logo a frente, nos deparamos com duas opções: subir pela escadaria com "trocentos" degraus ou pegar um elevador interno que te leva direto aos níveis mais altos. Claro que escolhemos o elevador.

Ao sair do elevador, começou a experiência de verdade. Uma sequência de túneis, passarelas e corredores escavados na rocha nos levaram para dentro da montanha. O impacto foi imediato. A água descia com uma força impressionante, formando redemoinhos e explosões de movimento dentro das cavernas. O som era alto,
constante, quase hipnótico. O ambiente úmido, meio escuro e frio. Muito frio.

Enquanto caminhávamos pelos corredores, paramos para observar pequenas aberturas na rocha que funcionam como janelas naturais, revelando a água passando com violência logo ao lado. Em alguns pontos, os respingos gelados eram inevitáveis. Mas não chega a molhar muito. E tudo é absolutamente fascinante. No último estágio, a sensação é quase surreal. É difícil até de explicar. Você está literalmente dentro da montanha, acompanhando a força da natureza por dentro.
Na volta, decidimos descer pelas escadas externas, que vão contornando a montanha e revelando o vale lá embaixo, enquanto vamos descobrindo novos ângulos das quedas d’água. Foi realmente uma experiência única, difícil de traduzir em palavras.
Piquenique, chuva e um momento inesperado
De volta à base, paramos na lanchonete do local para complementar nosso estoque de quitutes e seguimos pedalando até encontrar um banquinho à beira da estrada.
Ali, fizemos nosso piquenique, absorvendo a atmosfera incrível do vale de Lauterbrunnen.

Hora de pedalar de volta para a vila para devolver as bikes exatamente a tempo: o tempo tinha mudado e o céu estava carregado, quase preto, anunciando chuva, que não demorou a chegar.

Decidimos nos refugiar em um simpático restaurante que tinha um deck coberto por toldos. O lugar estava cheio, com a galera comendo, bebendo, aproveitando o momento. Sentamos em uma das mesas e pedimos uma taça de vinho para curtir a chuva que caía lá fora.
De repente, do nada, o toldo retrátil começou a fechar. Ninguém entendeu nada. Todo mundo começou a levantar sem saber se segurava o prato, o copo, se corria… Os garçons pareciam mais perdidos que cego em tiroteio... Até que alguém matou a charada! Um desavisado, sem querer, tinha apertado o controle remoto no bolso e acionado o fechamento dos toldos. Foi um tal de aperta o botão, até que conseguiram parar o mecanismo e abrir a cobertura novamente. Os garçons vieram pedir desculpa, enxugaram as cadeiras, e todo mundo voltou para seus lugares. Vida que segue.. rsss

Quando a chuva deu uma trégua, pagamos a conta e caminhamos até a estação para pegar o trem de volta para Wengen.
Nesse dia, a chuva seguiu noite adentro. Depois de um banho e um merecido descanso, estávamos mortos de fome. Conseguimos um guarda-chuva emprestado no hotel e seguimos pelas ruelas molhadas em busca de um lugar para jantar. Nos indicaram o restaurante do Hotel Jungfraublick, localizado em um ponto mais alto de Wengen. O lugar era lindo, um verdadeiro achado... Sentamos em uma mesa perto da janela e já aquecidos, ali ficamos olhando a chuva cair do lado de fora, enquanto as luzinhas da pequena vila piscavam lá embaixo, compondo uma paisagem quase cinematográfica.
Uma noite perfeita para fechar um dia mais perfeito ainda.
Dia 4 — Interlaken e o lago Brienz

No quarto e último dia na região de Jungfrau, nosso programa era conhecer a cidade de Interlaken e fazer um passeio da barco pelo lago Brienz. Interlaken é conhecida por ser uma base central para explorar todas as atividades que a região oferece, especialmente as pistas de esqui no inverno, mas na primavera, acredito que a grande atração local sejam os lagos. Como seu nome revela, Interlaken quer dizer "entre dois lagos", o Thun e o Brienz, também conhecidos como Brienzersee e o Thunersee. O visual é incrível. A vila no meio e nas extremidades, os lagos, um de cada lado, com o rio Aare ligando os dois.
Os lagos são gigantes - o Thun com 17,5 km e o Brienz com 14km de extensão. Em suas margens estão situadas vilas, castelos e outras atrações possíveis de se conhecer por terra, mas pela água é muito melhor!!! E foi isso que decidimos fazer. Pegamos nosso velho trem e em 20 minutos estávamos em Interlaken.

Saindo da estação (que aliás são duas, um do lado leste e outra do lado oeste), fomos fazer um reconhecimento a pé pelo centro e paramos para tomar um café. A cidade é uma graça, maior que as vilas que estávamos percorrendo nesses dias, com muitas lojas, restaurantes e cafés espalhados por suas ruas.
Ao redor, os Alpes, sempre eles, majestosos, cercando tudo.

Logo, nos dirigimos para o porto de onde partem os barcos. O passeio pelo lago está incluído no Swiss Travel Pass e os horários de partida estão disponíveis no app SBB Mobile, onde também é possível consultar todos os pontos de parada ao redor do lago. Você pode descer onde quiser para explorar vilas e outras atrações e depois pegar o próximo barco para seguir viagem. Localizamos nosso barco, apresentamos o passe, embarcamos e lá fomos nós navegar pelo Brienz.


Já de saída realizamos o que nos esperava... A água do lago é azul-esmeralda, transparente, de tirar o fôlego. O barco é super confortável, com bancos no deck onde nos acomodamos para curtir o visual.
Estava um dia espetacular, um sol lindo, uma paisagem de sonho - o Brienz é cercado por montanhas e florestas, com várias cachoeiras ao longo de sua costa. Nosso plano era fazer duas paradas: uma na pequena cidade de Iseltwald e outra no Grandhotel Giessbach, para conhecer as Cachoeiras de Giessbach.
A pequena e pitoresca Iseltwald

Cerca de 20 minutos após nossa partida, chegamos a Iseltwald, uma pitoresca vila suíça situada às margens do Brienz. Cercada por montanhas e pelas águas azuis do lago, a cidadezinha é um toco de gente... Mais parece um cenário cinematográfico fora de uso. Tirando os turistas caminhando pelo centrinho próximo ao píer de chegada dos barcos, quase não se vê gente ao redor. Desembarcamos e começamos a perambular pela cidade. A pracinha em frente ao píer é decorada por jardins floridos. A cidade é composta por poucas ruas estreitas repletas de chalés suíços com flores nas sacadas, um verdadeiro refúgio. O silêncio só é quebrado pelo canto de passarinhos e pelo movimento de vai e vem nas margens do lago.
A cidade abriga um charmoso castelo chamado Schloss Seeburg e já foi cenário da famosa série sul-coreana "Crash Landing on You". Pausa aqui para um fato curioso: o píer onde foi filmada uma das cenas da série virou point de fãs e acabou ganhando uma catraca automática para limitar o acesso - para tirar uma foto no tal píer, é preciso pagar a "bagatela" de 5 francos suíços. Para tirar foto de qualquer outro lugar ali do lado, com o mesmo visual do lago ao fundo é 0800... Vai entender quem paga...
Enfim, passeamos um pouco pela vilinha, tiramos várias fotos e voltamos ao píer para esperar o próximo barco para seguir nosso passeio. Estávamos ansiosos pela próxima parada: um hotel nas margens do Brienz que abriga um complexo incrível de cachoeiras.
O Grandhotel e as Cachoeiras de Giessbach

Apenas 10 minutos depois, o barco aportou no píer do Giessbach. Datado de 1874, esse hotel histórico é uma mistura emblemática de luxo e natureza. Sua construção fica encrustada na montanha e é possível avistá-la no alto, majestosa, enquanto o barco vai se aproximando do píer. O lugar é aberto à visitação pública, já que abriga uma atração natural incrível: um complexo de 14 quedas d'água consecutivas, acessíveis por trilhas que oferecem vistas espetaculares. O ponto alto do passeio é atravessar a ponte que passa por trás das cascatas. Já conto!!!
Para chegar no alto, o hotel possui um funicular de madeira, o mais antigo da Europa, cujo ticket custa 7 francos por pessoa. Subimos.
Tudo é super organizado e bem tranquilo. Saindo do bondinho, já estávamos na entrada do hotel.
Mas o grande impacto é o visual da cachoeira desabando da montanha que fica por trás da construção.

Seguimos pela trilha que vai margeando as águas da cachoeira até alcançar o trecho que te leva para mais uma aventura espetacular: caminhar por trás da cachoeira enquanto assiste a água jorrar na sua frente com uma força impressionante. Jesus... tudo nesse país é feito para proporcionar experiências sensoriais inesquecíveis!!! E o melhor: a visita às cachoeiras é gratuita.

Ao chegar no topo, passarelas de aço posicionadas entre a cachoeira e a pedra proporcionam uma espetáculo de tirar o fôlego. Enquanto caminhamos, vamos atravessando a cortina ouvindo o barulho ensurdecedor da água despencando montanha abaixo. É realmente mágico.
Depois da nossa pequena aventura, estávamos famintos e resolvemos almoçar no restaurante externo do hotel, que fica em um terraço com vista para o lago e pasmem: também para a cachoeira!!!
A cachoeira vista do hotel e o hotel visto da cachoeira
A comida é simples, mas super gostosa, e claro, acompanhada por uma taça de rosê geladinho para brindar mais esse momento.
Depois de matar a fome, ainda tínhamos um tempinho até o horário do barco e aproveitamos para conhecer o luxuoso e espetacular interior do hotel. Do salão magnífico a cachoeira e o lago continuam marcando sua presença, com vistas deslumbrantes.
E na realidade, ficar hospedado ali nem era tão impossível. Claro que como toda hospedagem na Suíça, uma diária do Giessbach não é barata, mas regulava com os valores que estávamos pagando nos outros destinos. Mas quando descobrimos isso, já tínhamos reservado todos os hotéis da viagem e foi uma pena, porque teria sido sensacional dormir uma noite ali e acordar vendo as cachoeiras da janela do nosso quarto. Fica a dica!!!
Antes de deixar já saudosos esse lugar impressionante, circulamos um pouco pelo deck e pelo jardim que circunda o prédio, aproveitando o sol e o visual.

Mas era chegada a hora de pegar nosso barco. E como despedida desse lugar saído de um filme de época, um fato curioso: uma plaquinha informava que o próximo funicular partiria às 15h. O bondinho já estava parado na estação e o condutor fardado a caráter orientava os poucos visitantes a embarcar. Entramos, sentamos e ficamos olhando para um grande e antigo relógio de madeira na parede. Quando o ponteiro marcou três horas e em ponto, o condutor apertou um botão e lá fomos nós ladeira abaixo, pontuais como um reloginho suíço!!!
Tarde chegando ao fim, hora de voltar para Interlaken. O barco chegou e nos levou de volta para nosso ponto de partida. Que dia incrível!
Antes de pegar o trem para Wengen, ainda queríamos conhecer o famoso Harder Kulm, um dos pontos de observação mais icônicos de Interlaken.

Situado a 1.322 metros de altitude, o lugar é conhecido como o "Top of Interlaken" e oferece vistas panorâmicas espetaculares dos lagos Thun e Brienz e das montanhas em volta - os majestosos picos Eiger, Mönch e Jungfrau. A subida é feita de teleférico e tem uma surpresinha: um trecho é percorrido por dentro da montanha e por alguns segundos fica tudo escuro. Luzes coloridas são acionadas tornando a experiência divertida. Mas a subida é bem carinha: são 22 francos por pessoa.
A vista lá do alto é realmente incrível, mas depois de um dia intenso, já estávamos bem cansados, então achamos que não valeu muito a pena. Ficamos pouco tempo e decidimos voltar para "casa".
Seguimos para a estação para nosso já conhecido trajeto de volta até Wengen. Nessa última noite, decidimos comprar umas comidinhas no Coop e jantar no quarto do hotel. Depois de quatro dias de subindo e descendo montanhas, pedalando por vales, explorando cachoeiras e fazendo trilhas, estávamos super cansados, mas incrivelmente felizes com tudo que vivemos. No dia seguinte, partiríamos para a última etapa da nossa viagem: a capital Berna, uma cidade encantadora que combina com elegância história, cultura e arquitetura medieval, da qual falo no próximo e último post dessa série sobre nossa viagem pela Suíça (confira também o post bônus sobre 10 coisas imperdíveis na Suíça Alemã).
E assim fechamos nossas aventuras por essa região esplendorosa dos Alpes Suíços. É difícil dizer do que gostamos mais. Foi absolutamente tudo perfeito e inesquecível. Só mesmo muita gratidão por termos tido a oportunidade de experimentar de forma tão autêntica uma imersão nesse lugar tão rico de história e sobretudo de natureza.

Para saber mais sobre nossos dias na Suíça, leia os outros posts dessa série.
Berna
10 coisas imperdíveis na Suíça Alemã
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